Experiências nas graduações em Saúde Coletiva e Medicina e nos mestrados profissionais serviram de instrumento para pensar o campo e seus dilemas.

Da esquerda para a direita, Cássia Medeiros, Miguel Montagner, Elza de Melo, Luis Eduardo Batista, Taitiana Gerhardt, Nelson Filice de Barros, Marcia Thereza Falcão, Remi Barsaglini e Maria Helena Mendonça - Fotos: Flaviano Quaresma
Da esquerda para a direita, Cássia Medeiros, Miguel Montagner, Elza de Melo, Luis Eduardo Batista, Taitiana Gerhardt, Nelson Filice de Barros, Marcia Thereza Falcão, Remi Barsaglini e Maria Helena Mendonça – Fotos: Flaviano Quaresma

Parte constitutiva e fundamental do conhecimento em Saúde Coletiva, as Ciências Sociais e Humanas em Saúde vivem um paradigma: como perpetuar uma trajetória histórica sob novas bases teóricas – exigidas pela atual conjuntura científica e social – diante da necessidade de repensar a formação de outro tipo de profissional, que traz a bagagem das graduações em Saúde Coletiva e sofre todo o tipo de pressão do discurso biomédico e das evidências científicas? Esses foram alguns dos questionamentos que movimentaram o 1º Simpósio da Comissão de Ciências Sociais e Humanas em Saúde da Abrasco, realizado em 08 de setembro, no campus da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), dentro das atividades pré-congressuais do 9º Congresso Brasileiro de Epidemiologia.

O evento é a materialização da primeira atividade da Comissão, deliberada na primeira reunião da nova composição, realizada em 19 de fevereiro desse ano. O objetivo, segundo Tatiana Gerhardt, coordenadora da Comissão e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFGRS), a realização dos simpósios buscam “dar uma dinâmica maior aos nossos encontros, para fomentar discussões de fundo sobre os grandes eixos de atuação da comissão.”

O ensino das Ciências Sociais em Saúde foi escolhido como o primeiro tema. Foram quatro apresentações, realizadas, respectivamente pelos professores Miguel Ângelo Montagner, do curso de Saúde Coletiva da Faculdade de Ceilândia, da Universidade de Brasília (FCE/UnB), Nelson Filice de Barros, do departamento de Ciências Sociais da Faculdade de Ciências Médicas, da Universidade de Campinas (FCM/Unicamp), Reni Aparecida Barsaglini, do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Mato Grosso (ISC/UFMT) e Elza Machado de Melo, do Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (DMPS/FM/UFMG). Marcia Thereza Falcão, professora do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina, da Universidade de São Paulo (DMP/FMUSP) foi a comentadora do evento, articulando temas que perpassaram as apresentações.

Exposições: Miguel Montagner apresentou o tema Graduação em Saúde Coletiva, a formação da ilusio a partir das Ciências Humanas e Sociais. Na exposição, Montagner articulou a relação da transmissão dos conceitos das Ciências Sociais na graduação e como os estudantes assimilam o conhecimento e aderem a essa inserção profissional. O professor se valeu dos conceitos de Pierre Bourdieu e da experiência da coordenação do curso. “Minha preocupação, depois de seis anos de existência e vários formados, é entender se conseguimos essa adesão e passar a importância desse pensamento crítico, ou se estamos formando apenas interessados em diploma e em concurso público.”

Na sequência, Nelson Felice de Barros trabalhou os conceitos de Max Weber para pensar a atual necessidade dos profissionais de Ciências Sociais e Humanas em Saúde nas atividades do SUS. Ele fez um resgate histórico dos primeiros cientistas sociais inseridos na área da Saúde, que tinham um forte arcabouço no materialismo histórico e um diálogo afinado com médicos ligados às estruturas político-partidárias. “Esse projeto foi vencedor e acabou garantindo a existência do SUS. O fato é que, desde então, temos o desafio de responder uma questão: o que o SUS pede hoje para as Ciências Sociais além da nossa vocação política? O que é exigido da nossa formação teórico-intelectual? Temos tido certa dificuldade de tematizar isso e trazer isso para o campo da Saúde.”

Na parte da tarde, a primeira exposição foi da professora Reni Barsaglini, que abordou a dinâmica do ensino das Ciências Sociais e Humanas em Saúde nos demais cursos da área, como Enfermagem, Medicinada e Nutrição. Ela avaliou os motivos que fizeram aumentar essa demanda e fez críticas aos muitos projetos políticos-pedagógicos que incluem docentes do campo apenas com o intuito de “pegar bem” ou seguir unicamente os pré-requisitos das Diretrizes Curriculares Nacionais. No caso da Medicina da UFMT, apesar de o conteúdo estar presente em, ao menos, uma cadeira nos primeiros oito períodos, a professora relata a baixa valorização dos conhecimentos pelos alunos. “É necessário um conjunto de estratégias, como visitas a unidades de referência, estímulo à vivência e à construção de narrativas e utilização de suporte audiovisual para falar com esses estudantes.”

Coube à professora Elza Machado apresentar a situação do ensino nos Mestrados Profissionais, tomando como referência o programa de promoção da saúde e prevenção da violência, coordenado por ela na UFMG. Ela destacou que o público diferenciado que compõem o corpo discente, de oceanógrafos a profissionais do serviço, tem uma boa aceitação dos conteúdos das Ciências Sociais. Os motivos, na visão de Elza, são a capacitação ancorada na prática profissional e na produção do conhecimento e de tecnologias com aplicação prática e a construção dos conceitos e ações voltadas para a valorização do coletivo. “A perspectiva é que esse profissional passe a trazer para sua vivência a importância desses conhecimentos, mexendo na forma de intervenção na questão da promoção da saúde e da prevenção da violência.”

Debate: A mediadora Marcia Thereza Falcão apresentou diversas questões que movimentaram o debate. “Vejo três conjuntos de questões que encadearam os debates: Quem somo e de onde viemos; quem formamos e o que queremos formar, e como contribuímos para o SUS. Acredito que  temos de enfrentar a diversidade interna ao campo para que isso nos impulsione, e não nos paralise”.

Montagner ressaltou a preocupação de como esse embate sofre também com questões externas ao campo das Ciências Sociais. “Eles são sujeito às influências dos discursos médicos e biomédicos, e temo que acabem se rendendo ao encanto de uma formação meramente técnica, um perigo.”

Felice, menos pessimista, destacou a necessidade de se trabalhar para além das dicotomias, e buscar o que acontece na fronteira da produção do conhecimento, o que necessariamente envolve uma produção compartilhada com profissionais e docentes de outros campos da Saúde Coletiva. “A partir dessa ambivalência construiremos sujeitos mais sensíveis para as contradições do serviço e das práticas de saúde e profissionais que possam fazer um cuidado mais emancipador.” Foi consenso entre os presentes a necessidade de remodelar os fundamentos do campo nos programas de Pós-Graduação por conta do novo perfil discente que procura os cursos.

Para  Tatiana, o resultado do simpósio foi acima das expectativas. “Foi um primeiro passo que conseguimos dar, buscando justamente um espaço de troca e diálogo com profundidade. O evento permitiu nos conhecermos e reconhecermos nossas semelhanças e diferenças. Foi fundamental ter disparado com esse primeiro encontro tantas questões importantes que vão fomentar não somente os próximos, mas também os debates que acontecerão no 7º Congresso de Ciências Sociais e Humanas em Saúde, previsto para acontecer na UFMT, em 2016.”

Fonte: ABRASCO

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