Leia a entrevista com Tatiana Gerhardt, coordenadora da Comissão de Ciências Sociais e Humanas em Saúde e proponha seus temas. O prazo é até 15 de março.

Tatiana Gerhardt, da Comissão de CSHS, reforça a importância da construção coletiva da programação do congresso - Foto: Abrasco
Tatiana Gerhardt, da Comissão de CSHS, reforça a importância da construção coletiva da programação do congresso – Foto: Abrasco

Um chamado para pensar e se deixar afetar pelo o Outro: por outras geografias, ideias, narrativas e posicionamentos. Essa é a proposta da sétima edição do Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde, que será realizado entre os dias 09 a 12 de outubro, no campus da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), em Cuiabá.

Para isso, a participação e a construção coletiva são marcas indispensáveis para esse processo. Nessa perspectiva, a Comissão Científica do Congresso e a coordenação da Comissão de Ciências Sociais e Humanas (CCSHS/Abrasco) convidam pesquisadores, grupos de pesquisa, profissionais de saúde, associações civis e todo o tipo de organização popular a apresentarem temas e eixos de debate para estruturar o evento e organizarem as apresentações das comunicações orais e os pôsteres eletrônicos. A essa proposição é dado o nome de GT – Grupo Temático, a exemplo da organização de outros eventos da área das Ciências Sociais, como a Reunião Brasileira de Antropologia promovida pela Associação Brasileira de Antropologia (ABA), e o Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS), entre outros eventos científicos.

+ Veja a matéria com o lançamento da chamada dos GTs para o 7º CBCSHS

“Os GTs são formados especificamente para o desenvolvimento das atividades do evento e, portanto, não devem ser confundidos com os GT da Abrasco”, explica Tatiana Gerhardt, professora do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e coordenadora da Comissão. A ideia é que os participantes do congresso, sejam eles apenas ouvintes ou apresentadores de trabalhos – envolvam-se com o GT e o acompanhem pelos três dias de evento.

“Por ser um evento científico que trabalha também com formas de produção de conhecimento científico tradicionais, é legítima a obrigatoriedade de termos doutores para compor a coordenação”, explicou Tatiana, sem deixar de destacar o interesse da organização do evento de que haja também não-doutores nas coordenações dos GTs – cada grupo pode ter até 03 coordenadores. “Contar com pessoas com outras formas de produção e divulgação do conhecimento e de inserção profissional, surge dos desdobramentos de nossas reflexões sobre as repercussões da produção do conhecimento na sociedade […], principalmente, em articulação com outros grupos da sociedade sem a qual a ciência perderia seu sentido e essência”.

A hora de estabelecer pontes e parcerias entre academia e movimentos sociais e os serviços de saúde é agora. Interessados em apresentar propostas de GTs têm até o dia 15 de março (terça-feira) para enviar pela plataforma do CBCSHS. Clique e inscreva. Após avaliação e definição dos GTs, será feito o lançamento oficial do site do evento, com o Termo de Referência e prazos para participação. Haverá ainda chamada para organização de oficinas, reuniões e atividades da Tenda Paulo Freire, abertas também aos movimentos sociais. Leia abaixo a entrevista com Tatiana Gerhardt e participe do um dos principais congressos da Saúde Coletiva brasileira.

Abrasco: A proposição dos temas e do GTs do CBCSHS por parte da comunidade científica já acontece a quantas edições?
Tatiana Gerhardt: Esta metodologia já foi adotada com sucesso no 5º e 6º do Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde da Abrasco. Ela privilegia o debate aprofundado de temas específicos articulado ao tema do congresso e favorece o intercâmbio da produção científica contemporânea na área de ciências sociais e humanas em saúde, proveniente do conjunto de instituições de ensino e pesquisa existentes no país.

Nesta 7º do CBCSHS, os Grupos Temáticos (GTs) constituirão, mais uma vez, o eixo central da programação científica. Os GTs são formados especificamente para o desenvolvimento das atividades do evento e, portanto, não devem ser confundidos com os GT da Abrasco.
Abrasco: Esse hábito é comum em demais congressos e sociedades científicas? Por que é importante para a Abrasco?
Tatiana Gerhardt: Este hábito é comum em congressos e eventos da área de Ciências Sociais e Humanas, nacionais e internacionais como, por exemplo, a Reunião Brasileira de Antropologia promovida pela Associação Brasileira de Antropologia (ABA), e nos de Ciências Sociais e de Sociologia promovidos, respectivamente, pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS), pela Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), o Fazendo Gênero (UFSC) e muitos outros.

É importante para a Abrasco, e para a área de CSHS de forma geral, porque este formato organizativo responde as exigências de discussões aprofundadas sobre temas de interesse para a área e condiz com a própria forma de produção do conhecimento da área onde se privilegia a densidade teórica-conceitual e metodológica. Estamos em processo de aprimoramento e consolidação deste formato organizativo no âmbito de nossos congressos, pois em edições anteriores ainda tivemos participações “relâmpagos” nos GTs, ou seja, apresentações de trabalho de um mesmo autor em sessões de GTs diferentes, o que se avaliou como pouco produtivo devido à dispersão das discussões.

Acredito ser oportuno ressaltar que na 7ª edição do congresso da área de CHSS, enfatiza-se o significado desta proposta organizativa, que se diferencia das apresentações tradicionais de comunicações orais e pôsteres eletrônicos, ocupando lugar de destaque na programação científica. Os GTs promovem discussões temáticas e sistematizam, agrupam e realizam as sessões de comunicação dos trabalhos aprovados, funcionando como espaço que problematiza e qualifica as apresentações e as problematizações em torno do tema do GT e do congresso.

Um Grupo Temático tem duração 3 horas por dia, sendo realizado ao longo de 3 dias em no máximo 3 sessões (1 sessão por dia), distribuídos em apresentação oral e pôster eletrônico, favorecendo discussões mais aprofundadas para as quais os coordenadores de GT poderão incluir/convidar um Coordenador/debatedor para cada uma das sessões. Nesta modalidade proposta, os trabalhos aprovados para apresentação, vinculam o seu autor ao GT, ou seja, espera-se que participe integralmente das discussões dos 3 dias previstos.

Os coordenadores de Grupos Temáticos (máximo de três/GT, sendo um apoiado pela organização) são pessoas chaves e corresponsáveis do sucesso do congresso. Pois, para além de propor temas e questões, perspectivas teóricas e abordagens metodológicas, contribuindo assim com o eixo central da programação, o coordenador do GT indica os pareceristas do tema, coordena o processo de avaliação dos resumos e sistematiza a apresentação dos trabalhos aprovados do Grupo Temático ao longo dos 3 dias.

Abrasco: Toda e qualquer pessoa, grupo, ou núcleo de pesquisa pode propor uma temática. A organização aponta que, ao menos um dos coordenadores, deve ter o título de doutorado. Por que é importante haver um doutor(a) e por que é importante contar com pessoas com outros níveis de formação/inserção profissional?
Tatiana Gerhardt: Veja, estamos falando de um evento científico e de formas de produção de conhecimento científico tradicionais, portanto é legítima a obrigatoriedade de termos doutores para compor a coordenação, conforme critérios estabelecidos e que constam no formulário de propostas. Isso se faz pela compreensão de que o processo do CBCSHS é produzido pela comunidade científica da Saúde Coletiva – profissionais que dedicaram anos de estudo, leitura, pesquisa e participação no debate científico e social e que estão inseridos no contexto das instituições de ensino e pesquisa, além da compreensão de que o evento é uma construção histórica, e já se encontra em sua sétima edição. No entanto, tal construção não se efetiva de forma isolada, mas compartilhada nos coletivos. Assim, os demais coordenadores não precisam necessariamente ter o título de doutor e, por isso, frisamos a importância e valorizamos a participação de representantes dos movimentos sociais e da sociedade civil organizada, além da participação de profissionais dos serviços e da gestão em saúde também como coordenadores.

Contar com pessoas com outras formas de produção e divulgação do conhecimento e de inserção profissional, surge dos desdobramentos de nossas reflexões sobre as repercussões da produção do conhecimento na sociedade, partindo do compromisso de que não se faz ciência apenas com nossos pares na Academia, mas também, e principalmente, em articulação com outros grupos da sociedade sem a qual a ciência perderia seu sentido e essência.

Assim, precisamos criar movimentos entre as formas de conhecermos e compreendermos o mundo em que vivemos e o lugar que nele ocupamos, estabelecendo pontes de ligação entre os diferentes saberes as diferentes formas de produção do conhecimento e de suas potencialidades de comunicação. Desta forma, estamos reconhecendo a necessidade do campo da Saúde Coletiva de considerar e se apropriar da multiplicidade dos gêneros discursivos nas suas práticas de pesquisa, de produzir outros movimentos possibilitando, igualmente, uma maior (re)aproximação e melhor devolução à sociedade em geral daquilo que a ciência produz, assim como potencializar a comunicação e a visibilidade, no campo científico, das experiências dos indivíduos no que diz respeito a sua saúde. Este formato visa, portanto, promover a interface entre a academia e a sociedade civil/movimento social, gestor e ou serviços de saúde.

Abrasco: A Abrasco tem na sua missão ser uma entidade parceria dos movimentos sociais e o 7º CBCSHS é uma oportunidade para tal. Como organizações populares podem participar?
Tatiana Gerhardt: Elas podem participar por meio de propostas de GTs, atendendo aos critérios estabelecidos no formulário específico, ou seja, associando-se a grupos e instituições que promovam o diálogo inter-regional, inter-institucional e interdisciplinar. Lembrando não ser este uma movimento em mão única. Outra forma de participação poderá ser na proposta de atividades pré-congresso, como oficinas, por exemplo, desde que atendam, novamente, aos critérios acima mencionados.

Procuramos também, em todas as etapas de organização da programação científica do evento, sermos coerentes com o Termo de Referência do congresso, que aposta na diversidade e no pensamento crítico, na emancipação e na alteridade em momentos de adversidades. Assim, não poderíamos deixar de incluir a Tenda Paulo Freire, sendo este um espaço que privilegia e reforça o diálogo intercultural e a horizontalidade de saberes numa construção partilhada de conhecimentos, saberes e fazeres, e que problematiza práticas sociais, culturais e políticas.

Abrasco: Apostar na diversidade e no pensamento crítico em momentos de adversidade é o tema do Congresso. Na sua opinião, o que esse mote significa para o campo da Saúde Coletiva?
Tatiana Gerhardt: O termo de referência, que em breve irá ao ar no site do congresso, expressa as preocupações de pesquisadores do campo com a atual situação, extremamente complexa e desafiadora de “sermos sociedade”, e decorre da reflexão sobre a pluralidade de experiências sociais nos seus mais diferentes níveis articulados e os respectivos contrastes e tensões que carregam no contexto contemporâneo e que se expressam na vida de pessoas e coletividades.

As atuais configurações econômicas, comunicacionais, participativas, socioculturais que evocam o reconhecimento ético-moral dos direitos emancipatórios pautado pela alteridade dos sujeitos, convivem com as adversidades das violências nas suas mais difusas e múltiplas formas e com os problemas persistentes decorrentes das iniquidades sociais. Neste cenário, cabe às Ciências Sociais e Humanas em Saúde colocar em relevo a heterogeneidade de referencias identitárias e de lógicas de ação dadas ou condicionadas pelas atuais configurações sócio-politico-institucionais inseridas num intrincado jogo de forças que operam na afirmação e recriação da diferença e do pertencimento.

Para tanto, recorre-se ao pensamento crítico deslocando a compreensão de questões da esfera aparente e, exclusivamente, privada e acabadas, para o espaço público e em permanente construção, haja vista que elas não se constituem definitivas e no plano somente individual: nem na sua origem, nem no seu enfrentamento, mas na confluência e dinamicidade da relação indivíduo-sociedade que, então, não deve ser diluída, fragmentada, estática, burocratizada ou despolitizada na sua abordagem.

Esse movimento pressupõe potência para posicionamento crítico o qual, diante de realidades incoerentes, contraditórias, discordantes das suas definições oficiais indigna-se, incomoda-se e as desnaturaliza desvelando o fato de serem “produções” arbitrárias, interessadas, mas sempre inacabadas e, assim fazendo, engajar-se nas transformações nas suas contínuas reconstruções.

Contudo, tal engajamento se coloca pendular e circularmente em combinações intersubjetivas e objetivas, individuais e coletivas que remetem à emancipação prenhe que é da noção de liberdade, por vezes constrangida por privações, omissões, negligências, impunidades. Isto quer dizer que, embora haja certo reconhecimento no plano formal do pluralismo político-ideológico e do multiculturalismo, ele carece de correspondências efetivas em termos políticos e sociais, sendo que seu comprometimento pode emanar dos próprios entes que deveriam salvaguardar aqueles princípios. Mas, também, que a emancipação não se dá sem que as pessoas sejam encorajadas, requisitando que sejam fortalecidas política, social, cultural e afetivamente para remover os obstáculos à sua construção neste processo integrado e não autônomo às realizações da coletividade.

Emancipação que também se coloca pela capacidade de libertar-se do individualismo perverso e deixar-se afetar pelo Outro e mobilizar o agir comprometido pela atuação democrática, equânime e solidária ao coletivo, alicerçada numa relação de compromisso ético e político entre sujeitos e instituições.

Ao nos deslocarmos para a região centro-oeste do Brasil provocamos também outros movimentos de valorização, de visibilidade e de acolhimento da diversidade na produção do conhecimento, em busca da construção de um lugar comum a área das Ciências Sociais e Humanas em Saúde. Outras linguagens locais, como a obra de Manoel de Barros e fotografias de Mike Bueno são inspiradoras desse movimento, não só geográfico, mas, sobretudo, crítico-reflexivo.

Assim, sentimo-nos convocados a pensar novas formas de produção do conhecimento que evoquem o reconhecimento ético-moral dos direitos emancipatórios pautado pela alteridade dos sujeitos. A Comissão de Ciências Sociais e Humanas em Saúde da Associação inova, assim, sua programação ao buscar olhares sensíveis que captam a essência dos espaços de vida e que contribuem para uma escrita densa e sensível sobre os modos de “ser sociedade”, onde a abertura para a relação com o outro e para a compreensão do seu ponto de vista, imersa na alteridade, seja capaz de implicar em constante reflexividade ética e de produzir diferentes linguagens sobre os inúmeros contornos da vida.

Fonte: https://www.abrasco.org.br/site/2016/03/7cbcshs_gts_tatiana_gerhardt/

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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